supercrônico

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crônicas, contos e poesias

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Prazer! Meu nome é Oswaldovino

Já fazia uns dez dias que ela tinha entrado como nova funcionária na loja, atendendo os clientes no balcão de entrada, enquanto eu mal a via durante o dia por trabalhar nos fundos, organizando o estoque e separando pedidos, mas quando eu a via meu coração disparava e a boca sorria involuntariamente de tanto encantamento. Ela era perfeita , morena, alta, do cabelo liso e os olhos verdes e essa perfeição se deu até o dia em que eu me aproximei e perguntei seu nome:

__ Posso saber seu nome?
__ Sim claro, me chamo Leovegilda Rosicláudia Paredina .

E ela prossegui dizendo que era irmã da Iracema, da Moema, da Otacilia,da Dizmeire, da Nereide, prima da Ladisley, da Lizia e etc...
Como é que pode? Tão bonita mas com um nome tão estranho. Talvez seja um legado de família, como uma competição criativa cujo as vítimas são as crianças, que hoje. por ser criança ão entende, mas ao crescer, se não tiver jogo de cintura, será constrangida em rodas de amigos no colégio. O bom é que da pra contornar com um apelidinho básico, no caso da Leovegilda, que pode ser chamada de Gilda, que o nome não ficará tão estranho e ninguém saberá até perguntar seu nome original.
Claro que não podemos definir o caráter de uma pessoa simplesmente por ter um nome diferente do comum, tanto que temos várias personalidades de talento e sucesso da midia nacional, que esconde o nome próprio de batismo atrás de um nome artístico, sem deixar de ser talentosa por causa do nome. Por exemplo o empresário e apresentador de TV Sílvio Santos, se chama Senor Abravanel e do Trapalhão Dedé santana se chama Manfried SantÁnna. Alguém sabe o verdadeiro nome de Lima Duarte? Ele se chama Ariclenes Venâncio Martins.
 Pois daí eu penso; Uma moça tão bonita no mínimo foi um bebê bonito também. Como é que seus pais conseguiram olhar para aquele nenem tão lindo e um sorrir para o outro e dizer: " O nome dela será Leovegilda Rosicláudia Paredina". Se bem que Leovegilda não é tão feio se compararmos com outros que descobri fazendo pesquisas, veja os exemplos:

Abrilina Décima Nona Caçapavana Piratininga de Almeida

Primeira Delícia Figueiredo Azevedo

Produto do Amor Conjugal de Marichá e Maribel

Maria Tributina Prostituta Cataerva

Marciano Verdinho das Antenas Longas

Lança Perfume Rodometálico de Andrade

Himineu Casamenticio das Dores Conjugais

Flávio Cavalcante Rei da Televisão

Ava Gina (em homenagem a Ava Gardner e Gina Lolobrigida)

Antonio Manso Pacífico de Oliveira Sossegado

Os estados do Ceará, Bahia e Paraíba são campeões em criatividades nos nomes dos próprios filhos. Imagina nos anos de 50 e 60 para trás, aonde era comum casais simples terem mais de 6 filhos, haja imaginação pra nomear todas essas crianças. Tem muita gente que tem o nome diferente devido ao analfabetismo dos pais, que na hora de registrar os filhos disseram o nome errado ou devido a um erro ao escrever o nome do cartocista.
Em toda década nasce uma geração de crianças e nessa geração vários nomes costumam se coincidir, nós chamamos de nome da moda. Mais tarde essas crianças vão envelhecer e outra geração surgirá com uma nova onda de novos nomes e, 50 anos depois, os nomes daquelas crianças que hoje já são velhas tornam a voltar moda. Por exemplo: Hoje é comum ver crianças se chamar Pedro. Antônio, José, Maria, Laura, Sofia e aqueles nomes que surgiram a tona na década de 80 como: Luciana, Ricardo, Rogério, Andréia estão em baixa.
Mas, depois de ter perguntado a ela seu nome, ela também me perguntou o mesmo e, educadamente eu respondi:

__ O prazer é meu, meu nome é Oswaldovino de Oliveira Borborema.

Texto escrito no dia 02 de Janeiro de 2011 e reeditado no dia 20 de Dezembro de 2011

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Quanto mede o amor?

Uma girafa macho adulto mede 6 metros de altura, enquanto um beija-flor mede de 6 a 12 cm, uma gritante diferença de tamanho entre ambos e bem longe do tamanho dos 33 metros e 200 toneladas da baleia azul.
Já o avestruz chega a medir 2,7 m de altura, que cabe tranquilamente no corpo elástico e comprido, dos 15 metros de cumprimento da maior serpente já capturada no mundo, uma Piton, exibida num parque da Indonésia.
Mas se eu somar o tamanho desses todos não dão o tamanho da escadaria suiça, que pertence ao comboio funicular de Niesenbahn (já não sei o que é isso) que chega a uma altura de 1.669 metros com 11. 674 degraus.
Isso tudo é fácil de descobrir, basta apenas digitar no google, mas quanto mede o amor? Quanto mede e como mede? Será que é com os segundos de sensação de saudade? Será que é com o excesso de cuidados? Será que é com o desejo de querer ter o que se ama a toda hora? Com refrão da canção favorita? Com poesia? Flores? Ou com o senso cardiopulsados?

"Nem mesmo o céu nem as estrelas
Nem mesmo o mar e o infinito
Não é maior que o meu amor
Nem mais bonito..."

O Roberto Carlos mediu, mas como? Talvez no seu sentido figurativo, imaginário.
"O meu amor mede 1,65 m de altura" disse um amigo e eu perguntei: Como? como mediu? Depois ri quando descobri que ele se referia à amada dele.
Duas pessoas que se amam podem se amar no mesmo nível? na mesma intensidade? Será que tem como pular da paixão e ir direto pro amor? Será que o tempo pode fazer amar quem não ama?


"A medida de amar é amar sem medida
Velocidade máxima permitida
A medida de amar é amar sem medida..."
  
Assim Disse Humberto Gessinger e assim diz todos que ama sem pensar em números, sem pensar em dinheiro, que só quer amor sincero, que só quer amar, só quer amar, só quer amar...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Síndrome de Peter Pan

Arrastado rua a fora pelo braço, assim que entrou foi jogado numa espécie de cama estreita, baixinha e de couro, nada confortável, cujo um homem já de idade, careca, vestindo branco, sentará numa cadeira de frente com ele. Sua mãe foi a quem arrastou pelo braço pelas ruas aos olhos das fofoqueiras de portão que cochichavam entre elas, que após lança-lo na cama estreita, baixinha e de couro, puxou uma cadeira, sentando ao lado do seu filho que tentava se ajeitar no pouco espaço lateral da cama e ficando diante do homem careca de branco.
O homem disse: "pode falar, fique a vontade rapaz", mas, quando o moço foi perguntar o porque de estar alí a mãe a interrompeu logo dizendo:

"Ele não cresce doutor", e o doutor prosseguiu perguntando surpreso: "Como? Ele deve ter 1,90 quase", e a mulher com ar de preocupada disse: "Não doutor, você não entendeu, vou lhe contar: Ele só veste roupa de garoto, bermuda, boné, camisetas com estampa de heróis de desenhos animados, solta pipa, joga betcha, anda de skate voltando sujo de terra de tanto que deita nas calçadas e só ouve I don´t wanna grow up do Ramones. Seus amigos são bem mais novos do que ele, digo bem mais novos mesmo, adora andar descalço, não dorme sem beber leite gelado com achocolatado em pó, só come de colher, devora tabletes inteiros de iogurte de morango, não pensa em se casar, aventureiro, coleciona figurinhas de jogadores do campeonato brasileiro, aluga filmes dos atuais clássicos da Disney e vara a noite deitado num colchonete no chão da sala, vestindo seu pijama do Ben 10 e pantuflas de tigre enquanto assiste os filmes e até acha que voa Doutor."

O doutor coçou a careca, depois coçou o queixo, tirou os óculos que estava pendurado na gola da camisa branca, verificando as lentes num raio de luz solar que entrara pela janela limpando-as com a própria camisa, depois pendurou-o de volta na gola da camisa branca, coçando o queixo mais uma vez e disse: "Ele sofre de Síndrome de Peter Pan minha senhora"

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Vendedor - O inimígo público

Sabe quando você esta no banho quente, em pleno mês de junho, faz frio lá fora e você relaxa sentindo a água cair em gotas nas suas costas, mas um furo mal planejado em seu chuveiro lança uma gota fria que cai bem no seu ombro. Chato não é!? Tão chato quanto aqueles programas de domingo a tarde, que você acaba assistindo por não ter o que fazer em um domingo tão chato quanto aos  mesmos programas que passam na TV. E aquele amigo que chega na sua casa a qualquer hora, entra sem chamar ou apertar a campainha, te acorda puxando seu edredon da cama, abre a geladeira e depois quer ir aonde você vai. Esse pingo chato, esses programas de domingo e esse amigo importuno, são tão chatos quanto à aqueles vendedores que te ligam na hora do almoço pra te vender um curso de informática ou produtos veterinários. O curso é até interessante e o sal pra boi também, mas não estão em seus planos. O vendedor te convence a importância do curso mas te incomoda por uns 10 minutos enquanto você diz não.
O CIDADÃO COMUM TEME O VENDEDOR COMO SE TEMESSE UM INIMÍGO PÚBLICO. As palmas no portão soam como uma rajada de metralhadora R-15 e aquela mala de couro na mão deles mais parece um porta-munição.
Ah! Quem nos dera se todo mal do mundo fosse os vendedores, que se as comunidades ao invés de serem tomadas por traficantes ou mílicias, fosse invadidas por individuos que tentam ganhar a vida te empurrando mercadorias e que ao invés de ser assaltado a mão armada você fosse abordado por um vendedor que te diria frases decoradas de markenting tipo:
"Você quer comprar um livro de auto-ajuda escrito por um sábio  chinês e que de brinde você ganha outro livro de receitas escrito por Ofélia?".
E você um bom cidadão consumidor acoado diz não, mas que logo é abordado por outro que diz:
"Você deseja comprar um shake emagrecedor que no ato da compra leva também  uma caixa de barras de cereais e uma gelatina diet?"
Nisso você continua a dizer não mas da de cara com um senhor de chapéu de palha e um cesto também de palha na mão que te diz: "Olha o queijo fresquinho de minas" e você sem suportar diz NÃOOOOOOOOOOO!!!
Pior é quando você esta do outro lado e deixa de ser alvo pra ser um caçador assíduo de consumidores tentando convence-los com suas técnicas verbais de venda. É ruim se sentir temido, pois independente de ser legal ou chato os vendedores são trabalhadores honestos como qualquer um.
Cabe ao vendedor ser sútil e agradável e o consumidor atende-los com respeito e educação.

Texto escrito e publicado no dia 28/12/10 e reeditado no dia 24/11/11

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O gazeteiro

"Na compra de um jornal você leva um brinde e só paga um real"

Era uma frase elaborada e decorada, mas bem que funcionava na época em que eu gazetava no farol do cruzamento das avenidas Piedade e Estudantes, em São José do Rio Preto-SP. Era um atrativo além da leitura, que eu oferecia toda quinta-feira para melhorar minhas vendas de jornal, mas tinha aqueles que com brinde ou sem brinde, nem olhava para o lado, permanecendo intacto, segurando firme ao voltante, até então eu insistir e completar a frase dizendo que o brinde era uma nota de cem reais. O 'Mauricinho' no carro do ano me virava num súbito e árduo movimento, sorrindo e já com a mão no bolso de trás pra tirar a carteira e comprar um jornal com o brinde faturado, pra em seguida fechar o rosto descobrindo que é mentira minha, com ar de "não teve graça" pra no fim eu sorrir, ou melhor, 'rolar' de tanto rir. Era uma mentira feita pra testar a personalidade destes mesquinhos movido a gasolina.
Percebi o quanto muitos se acham superior pelo simples fato de estar acomodado nos estofados de um carro, com ar condicionado e som potente, ainda mais diante de alguém que se expõe ao sol ardente, a chuva, o vento frio das manhãs e o perigo de ser atropelado por um motoqueiro enfurecido: "Hoje sou eu que está aqui, mas amanhã pode ser você", pensava eu com meus botões, apesar de achar que ninguém é mais que ninguém, por portar bens materiais que se degradam com o tempo.

"Na compra de um jornal você leva um brinde e só paga um real"

Era quase automático, pois bastava eu abrir a boca pra frase sair harmonicamente, as vezes saia com melodia virando refrão de uma música que não exisitia, ou só exisitia sem querer naquele momento e era aí que o cliente/motorista gostava..
O brinde oras era um caldo de galinha em tablete pra temperar a comida, oras era um cupom pra preencher e ganhar descontos na entrada do cinema e assim por diante e, de tanto pronunciar a frase, que era quase um slogan, me embananava todo trocando a ordem das palavras:

"Na compra de um brinde você ganha um real e só paga um jornal"

Caracas, quando eu percebia já tinha falado, era a força do hábito versus o tempo escasso que corria atrás de mim, feito avalanche nas montanhas geladas de um pólo qualquer do nosso planeta imenso, cujo eu ia de carro em carro, naquelas longas filas de motoristas impacientes, que eu sem perder a minha, cumpria meu horário de labuta feliz da vida

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Cadú diante do trem

Cadú passou a infância no início dos anos 90, e ele e seus amigos tinham como diversão a rua, numa época em que não existia internet, celular e toda parafernalha que o avanço da tecnologia disponibiliza aos jovens da atualidade. Ora jogava betcha, ora jogava bola descalço e sem camiseta, ora soltava pipa, ora descia a ladeira num carrinho de rolemã, desenhando o trajeto pra quem vinha atrás em outro carrinho de rolemã também, com pó de mico no asfalto e etc, sendo assim feliz. Mas essas eram as brincadeiras que ele e sua turma exerciam diante dos olhos dos seus pais, pois muitas vezes, quando enjoavam dessas peripércias toda e comum de qualquer criança pobre da época, eles saiam pra quebrar os vidros de uma casa velha abandonada no bairro, pra apanhar seringuela no barranco, pra deslizar o corrimão da passarela que liga o bairro ao antigo Cine Aquárius num  pedaço de papelão. Saíam pra pregar também chiclete mascado na campainha do vizinho pra sair correndo depois e algumas vezes, pra desafiar o trem de frente, era o mais perigoso, porém o mais divertido. Sim, sentavam eles pra conversar na linha férrea de dormentes velhos e cheio de farpas, que passa debaixo do viaduto que liga a avenida Murchid Homsi ao Parque da Represa Municipal, mas precisamente  próximo a uma da tarde, no horário que o trem com dezenas de vagão carregados de soja, óleo, milho, algodão e etc passava.
Olha o trem! Alguém gritava avisando e os demais levantavam em seguida aguardando-o.
Duda costumava desafia-lo descendo a bermuda e urinando enquanto ele se aproximava, Kiko, Gordo e Dani, esperavam o trem se aproximar a poucos metros de distancia pra então fugir sem sair da linha férrea até aonde dava e pularem de banda, mas Cadú desafiava-o de frente, olhando pro farol e pra cara do maquinista que o ensurdecia com a buzina fazendo cara de espanto, pra depois só pular pro lado escapando da morte.
Mas o tempo passou, cresceram, constituindo família e cargos profissionais.
Ouvi dizer que Duda casou, esta morando na Zona Norte da cidade e abriu uma fábrica de semi-jóias nos fundos de casa. Dani, a unica menina que vivia no limite com os meninos, assumiu gostar de menias e mudou pra outro estado afim de estudar arquitetura, Gordo, já não é mais gordo e detesta quando um amigo de infancia que a reencontra lhe chame assim e Kiko, de todos foi o que eu recebi a pior notícia, pois dizem que ele esta acamado, não progride mas também não parti pra pior. As más linguas falam que ele tem HIV e não se cuidou a ponto de chegar a tal estágio.
Cadú era o único que ainda morava no mesmo bairro, na mesma rua, na mesma casa com os pais, sempre buscando novos rumos de desenvolvimento pessoal, sem querer cortar o cordão umbilical que o ligava do presente às lembranças da infância, apesar dos quase 30 anos de idade.
Certa vez, Cadú foi visto andando cabisbaixo, encurvado pra baixo e pra frente, como se carregasse um fardo invisível e pesado nas costas, numa tal tristeza que só ele entendia. Desceu a rua Aterradinho, caminhando em direção ao Júpiter Olímpico até então ver o trem fazendo a curva, saindo da estação, enquanto atravessava a linha férrea. Cadú lembrou de cada instante da infância sem juízo e quis sentir se ainda tinha a mesma coragem ficando estático diante do minhocão voraz de ferro, olhando pro farol do trem e pra cara do maquinista que a ensurdecia com a buzina e com cara de espanto, como um toureiro que encara o touro, como um jogador atento pra bater um pênalti.
Alguém gritou: "Você é muito jovem pra morrer", mas a buzina do trem era tão alta que Cadú nem ouviu, saltando de lado, escapando da morte, provando que a mesma coragem de menino prevalecia em seu ímpeto, com a certeza de que a dor que lhe afligia se foi, carregado com a força da velocidade do trem.